Paz e sinodalidade Por uma Igreja missionária ao serviço das pessoas
Carta pastoral para a Quaresma de 2026
Caras irmãs e irmãos em Cristo,
O Evangelho do 1.º domingo da Quaresma apresenta-nos Jesus que, antes da sua vida pública, é conduzido ao deserto pelo Espírito. Ao longo de toda a sua vida, deixa-se guiar pelo Espírito de Deus: ao encontro dos doentes, dos pobres, dos excluídos e dos marginalizados. Desde o início, Jesus, pregador itinerante, quer partilhar o seu poder com os seus discípulos. Chama-os e reúne-os à sua volta para os ensinar antes de os enviar ao mundo, a fim de anunciar a Boa Nova. Também a nós, que pelo nosso batismo nos tornámos seus amigos, seus irmãos e irmãs, Ele dá um exemplo; chama-nos a escutá-Lo e a deixarmo-nos guiar pelo Espírito, cada um individualmente e todos em conjunto. Assim, o Evangelho ganhará um novo relevo para o nosso tempo. Estar a caminho com Jesus é um desafio novo todos os dias, sobretudo numa época em que já não é evidente ser cristão ou tornar-se cristão.
Uma Igreja missionária e sinodal
Para o Papa Francisco, o caminho da sinodalidade é o caminho de Deus para a Igreja no terceiro milénio[1]. No documento final do Sínodo, que faz parte do Magistério, nós, batizados, somos exortados a seguir juntos o caminho do Evangelho com toda a humanidade. O Papa Leão XIV partilha plenamente esta visão. Na homilia pronunciada em Roma por ocasião do Jubileu das equipas sinodais, no final de outubro passado, assumiu claramente a mensagem do seu predecessor: «O Espírito Santo impele-nos a sair de nós mesmos para ir ao encontro de Deus e dos nossos irmãos e irmãs, e a nunca nos fecharmos sobre nós próprios. Caminhar juntos é ser tecedores de unidade a partir da nossa comum dignidade de filhos de Deus.»
É este caminho que também queremos seguir no Luxemburgo durante a terceira fase do Sínodo, reorientando-nos para a Palavra de Deus, escutando-a com atenção, através da escuta mútua e da leitura dos sinais dos tempos, nas nossas paróquias, nos nossos movimentos ou comunidades e no seio dos organismos de participação. Demos uma ajuda onde houver mais necessidade de nós.
É preciso reconhecer, infelizmente, que o caminho de uma Igreja sinodal se inscreve hoje num mundo que perdeu a sua coesão. Um mundo onde a escuta falta, onde os poderosos exercem o seu poder, um mundo marcado pela violência e pela guerra, um mundo em que a lei do mais forte torna quase impossível o viver juntos.
No Evangelho do início desta Quaresma, Jesus mostra-nos como, sob a condução do Espírito Santo, não ceder às tentações. Tudo começa nas pequenas coisas, em família, no trabalho, em todos os lugares onde trabalhamos juntos e onde planeamos o futuro.
«A paz esteja convosco!»
No início do seu pontificado, o Papa Leão revelou-se como um construtor de pontes, um verdadeiro homem da paz. As suas primeiras palavras, na varanda da Basílica de São Pedro, a 8 de maio de 2025, foram: «La pace sia con tutti voi – A paz esteja convosco!» Esta saudação do Ressuscitado aos seus discípulos, o Papa dirigiu-a ao mundo inteiro. Repetidamente, volta ao tema da paz e às atitudes que ela exige.
Na sua mensagem por ocasião do Dia Mundial da Paz, a 1 de janeiro de 2026, insistiu também que a paz visada por Jesus é uma «paz desarmada e uma paz desarmante». «Deixo-vos a minha paz, dou-vos a minha paz.» Estas palavras escutamo-las em cada missa. Não a paz que o mundo nos dá (cf. Jo 14,27), mas a paz que nasce do sacrifício e do amor. Não se trata de uma paz procurada através do rearmamento militar. Santo Agostinho diz a este propósito: «Um verdadeiro amigo da paz ama aqueles que não o amam.» O Papa mostra-nos que não se trata de destruir relações nem de nos limitarmos a reprovações recíprocas. Pelo contrário, encoraja-nos a caminhar incansavelmente ao encontro do outro, a escutá-lo atentamente para descobrir, no diálogo, novos caminhos de esperança. Isto aplica-se também ao nosso caminho comum numa Igreja sinodal, que queremos prosseguir de modo consciente durante esta Quaresma.
A caminho nos arciprestados
Ao longo destas semanas, percorro a nossa arquidiocese para visitar os seis arciprestados. Assim, deparo-me com a rica diversidade das diferentes paróquias e comunidades, das suas forças e das suas fragilidades. Para mim, estes encontros são uma ocasião única para descobrir aquilo que vos motiva e vos é mais querido, a vós que estais empenhados de formas tão diversas na nossa Igreja. A todos agradeço de coração.
Ainda existem no nosso país muitas comunidades vivas, de línguas luxemburguesa, francesa, portuguesa, italiana, inglesa, espanhola, polaca ou outras. A vida da Igreja no futuro já não será certamente como sempre foi. Estas mudanças inevitáveis que virão não conduzirão, contudo, ao seu desaparecimento, porque estamos a caminho com Jesus Cristo, juntos, de forma sinodal.
Uma Igreja sinodal é, para mim, uma Igreja na qual cada cristão leva a sério o seu batismo. Daqui decorre que viverá o seu compromisso de batizado tanto no interior como para o exterior da Igreja. Todo o compromisso eclesial orienta necessariamente o nosso olhar para fora. A Igreja está também ao serviço da sociedade. Isso inclui o compromisso pela paz e pela justiça, pela salvaguarda da criação e pela atenção às pessoas marginalizadas, para citar apenas alguns domínios.
Avanti piccolo Lussemburgo (Papa Francisco)
Caros irmãos e irmãs, como vosso bispo, alegro-me por continuar este caminho convosco, em comunhão com o nosso novo Papa Leão. Esta vontade para toda a Igreja foi expressa claramente no seu primeiro discurso aos Cardeais, a 10 de maio de 2025: «E, a este respeito, gostaria que renovássemos juntos, hoje, a nossa plena adesão ao caminho que a Igreja universal segue há décadas na esteira do Concílio Vaticano II.»
A fraternidade e a sinodalidade desempenham um papel importante neste percurso. A nossa primeira prioridade, como Igreja que está no Luxemburgo, é o anúncio do nosso Senhor Jesus Cristo ressuscitado, que é o Caminho, a Verdade e a Vida.
Voltemo-nos, por fim, para Maria, nossa boa Consoladora. Há mais de 400 anos que caminha connosco. Quero confiar-nos todos à sua proteção materna e à sua oração, com as palavras pronunciadas pelo Papa Leão, a 8 de dezembro passado, em Roma:
«Maria, Mãe do Deus connosco.
Ajuda-nos a ser sempre Igreja com e entre o povo,
fermento na massa de uma humanidade que invoca justiça e esperança.
Imaculada, mulher de infinita beleza,
cuida desta cidade, desta humanidade.
Mostra-lhe Jesus, conduz-la a Jesus, apresenta-a a Jesus.
Mãe, Rainha da paz, roga por nós!»
Amen
Luxemburgo, 13 de fevereiro de 2026,
dia do falecimento de Nicolas Adames (1887), primeiro bispo do Luxemburgo.
+ Jean-Claude Cardeal Hollerich
Arcebispo do Luxemburgo
[1]Gisbert Greshake, Wohin geht die Kirche? (Para onde vai a Igreja?), Papa Francisco, 2015, citado pela Comissão Internacional de Teólogos, p. 222.
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